Catégories
Uncategorized

O Brasil nunca foi o país do futebol

 

  

O mundo inteiro sabe ou já ouviu falar sobre a paixão do brasileiro pelo futebol e como isso se entranhou na formação de sua identidade nacional.  Aliás, este esporte é uma das poucas coisas no Brasil que deu ao povo a chance de ter a consciência absoluta de que em alguma atividade faziam parte do Primeiro Mundo. Estufar o peito e dizer: Temos o maior futebol do mundo.

 

Porém, para o colunista e apresentador esportivo, Juca Kfouri, o Brasil nunca foi o país do futebol. “Essa é uma mentira que nós gostamos de dizer para nós mesmos. E a prova disso não é uma questão de opinião, mas de olhar pesquisa. Toda e qualquer pesquisa que se faça no Brasil sobre tamanho de torcida, entre 27% a 28% dos entrevistados afirmam não se interessar por futebol. Em segundo lugar, vem a torcida do Flamengo. Em terceiro, a do Corinthias. Em quarto, a do São Paulo e em quinto e sexto brigam palmeirenses e vascaínos.”, afirma o colunista.

 

Para o apresentador, se esta mesma pesquisa fosse feita na Argentina iria revelar outro placar: Em primeiro lugar, os torcedores do Boca Juniors. Depois, a torcida do River Plate e, na terceira posição, pessoas que não se interessam por futebol.

 

Com relação à média de público mundial, o Brasil ocupa a 18ª posição, atrás, até mesmo, da Segunda Liga do futebol alemão.

  

Fonte: PLURI Sportdata

“O Brasil teve sim a maior produção de craques por metro quadrado do mundo de 1950 até meados de 1980. E esse fato fez com que a ideia que os ingleses venderam do jogo bonito (beautiful game) tomasse conta de tal forma do imaginário da população que, em pouco tempo, o Brasil passasse a ser tratado como o país do futebol.”, revelou Kfouri.

 

Atualmente, a grande ameaça para quem entende de bola não tem nada a ver com o legado da Copa de 2014, ou se o Brasil será ou não hexacampeão. O que preocupa é observar o retorno paulatino desse esporte à elite do futebol e não à elite que joga futebol. 

Jogo bonito. Trazidos pelos ingleses, no final do século XIX, o esporte bretão, inicialmente, estava longe de ser uma atividade ligada à massa. Era algo da e para a elite. A presença de negros, pardos e pobres sequer era cogitada.  

A partir de 1917, os clubes começaram a aceitar a presença de negros nas partidas. Por sua vez, os jogadores brancos criaram uma regra para as faltas em campo: se um branco cometesse falta violenta contra um jogador negro, o juiz apenas marcaria a falta e o jogo seguiria normalmente. Mas se um jogador negro cometesse uma falta idêntica contra um jogador branco, o juiz, além de apitar a falta, daria ao branco o direito de revidar a violência sofrida, antes de cobrá-la. Porém, para se livrarem das faltas, os jogadores negros adaptaram a ginga das senzalas para o gramado. Daí surgirem no campo os “dribles” que tanto encantaram os ingleses e fizeram com que reconhecessem nosso estilo de jogo como  beautiful game.

 

Dentre as várias imposições da FIFA, os estádios brasileiros diminuíram de tamanho e foram rebatizados de Arena (Arena da Baixada, Amazônia, Pernambuco, Fonte Nova, Pantanal e São Paulo). Tudo com o claro propósito de corresponder às normas internacionais. Essas arenas são responsáveis pelo notório branqueamento das arquibancadas, uma vez que o preço dos ingressos é impraticável para as classes mais pobres, onde se concentram o maior número de negros e mestiços.

Arena (areia em latim) era um espaço, onde havia combates entre gladiadores e cristãos eram devorados por leões. A areia era espalhada pelo chão a fim de que o sangue fosse absorvido. 

                           

Será que vamos nos tornar o país do futebol pós Copa do Mundo?

De um lado a CBF. Por outro, a falta de política esportiva no País e a ausência do Ministério dos Esportes. Enfim, não faltam motivos para deixar o Brasil, atualmente, longe do cobiçado título de ser o país do futebol. 

Para o diretor de Jornalismo da ESPN e uma referência do jornalismo brasileiro, José Trajano, “nós já tivemos os grandes jogadores do futebol mundial na época de Garrincha, Pelé e Didi. Hoje, temos clubes falidos, estádios vazios e a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), que comanda o futebol brasileiro, nem um pouco preocupada com o destino dos jogadores, dos times e dos torcedores. A CBF se preocupa em faturar e muitos de seus dirigentes em se locupletarem do futebol.”, afirma o diretor da ESPN.

Trajano chegou a estabelecer uma comparação com a nossa vizinha, Argentina, que tem uma população muito menor que o Brasil, mas produz muito mais craques Segundo ele, raramente uma grande equipe da Europa não tem um bom jogador argentino. 

Já na opinião do experiente jornalista João Máximo, o Brasil “pisou na bola” ao ter perdido sua força política no futebol mundial. “Curioso é que o Brasil começa a perder essa força política exatamente, quando um brasileiro consegue uma façanha que é tornar-se presidente da FIFA e retirar a entidade que controla o futebol mundial das mãos do inglês Stanley Rous.”

Extremamente sagaz, Jean-Marie Faustin Goedefroid Havelange, ou simplemente João Havelange, carioca, filho de pai belga e ex-medalha de bronze na natação nos jogos Pan-americanos de 1955 conseguiu conquistar nações não européias ao descobrir que o voto para eleger o presidente da FIFA era unitário. Foram três anos de campanha e promessas, como aumento de vagas na Copa do Mundo, o que interessava especialmente as entidades africanas e abertura para o antigo bloco socialista. 

Máximo trás á tona uma passagem interessante sobre o porquê de Havelange querer se eleger presidente da FIFA. 

“Estava na Inglaterra na Copa de 1966 e Havelange já era o chefe da delegação brasileira pela primeira vez. Lá, ele percebeu a política da FIFA e o quanto ela poderia se tornar um negócio multimilionário. Nas Copas de 58 e 62, ele nem foi à Suécia nem ao Chile. João Havelange não tinha a ver com o futebol e transformou a entidade em uma mina de ouro.”, conta o jornalista. 

Diferente do que se poderia pensar com a presença de um brasileiro à frente do controle do futebol mundial por 24 anos (1974-1998), o Brasil só ganhou a Copa de 1994, mas a entidade acumulou um patrimônio avaliado em US$ 4 bilhões, subindo o número de participantes em Copas do Mundo de 16 para 32 seleções, atraindo a atenção de todas as televisões e elevando o valor do patrocínio. 

            

Artigo  baseada no debate entre Juca Kfouri, João Máximo e José Trajano no Placar Literário da Bienal do Livro 2013.

 

Artigo & fotos De: Ana Crys Tavares – rio de Janeiro – Brasil